O PROBLEMA DO DIVÓRCIO (IV) É lícito ao homem dar carta de divórcio e contrair novas núpcias? (Mateus 19: 3-17) |
É salutar repetir que a instituição original do matrimônio não contem a ideia de separação, pois é a própria formação de Deus, na qual nenhum homem deve interferir. O que o Senhor uniu foi macho e fêmea. O ser humano é dual, bipessoal expresso em homem e mulher com a união mantida no casamento. A poligamia também confunde a união que Deus criou. O primeiro exemplo de poligamia está em Gen.4.19. Nem poligamia, nem poliandria e nem bigamia, pois tudo isto fere a unidade do matrimônio. Se apenas uma mulher for despedida sem as formalidades legais - carta de divórcio - esta comete adultério, se se unir em matrimônio com outro, o que é válido tanto para o homem como para a mulher. Os discípulos reclamaram da "condição" do homem em relação à mulher. A palavra "condição" é η αιτία, que a Vulgata coloca como "causa" (CAVSA) e no hebraico é dibrah que pode significar "causa", condição, etc. Os discípulos refletiam o sentimento dos seus dias de forte discriminação dos seus simples e naturais direitos. Casamento sem qualquer possibilidade de liberdade essencial parecia-lhes uma conexão severa e insuportável. O adultério estava relacionado com o direito de propriedade (Lev.19.20), pois, de acordo com a legislação antiga, a poligamia e o concubinato não eram considerados adultério, mas sim o relacionamento sexual de um homem com a mulher do próximo. Deste modo, a carta de separação punha ordem nesta questão social e jurídica. Mateus escreveu para judeus. O tom do seu escrito harmoniza-se com os costumes e com a visão conservadora da escola de Shammai. Marcos, o mais antigo evangelho não registrou a frase de exceção: "Exceto em caso de prostituição". O mesmo acontece com Lucas - seu evangelho não contém a referida frase de exceção. Paulo também não a menciona. O apóstolo fala de uma situação ideal para o casamento cristão (l Cor.7.10;7.2-3). Nesta última citação Paulo menciona a prostituição como um mal a ser evitado no casamento - cada um tinha sua própria mulher, e cada uma tenha seu próprio marido".Sem dúvida, o divórcio é apenas um remédio;"não é bom que o homem esteja só", pois Deus o criou macho e fêmea. O que é aconselhável no caso de separação é a reconciliação, porque este é o espírito cristão. Caso contrário, não sendo possível a reconciliação, há o recurso da "carta de divórcio"- βιβλίον αποστασίου (Mat.19.7). Este é o instrumento legal, apropriado e necessário. Voltando ao inicio da conversa em Mateus 19.3-10, vemos que os fariseus não ignoravam o assunto. Sabiam eles que havia um mandamento da parte de Moisés sobre a separação do casal, mas seu propósito era tentar a Jesus: Queriam jogar Jesus contra Moisés - "Os fariseus, tentando-o – φαρισαίοι πειράζοντες αυτόν - e a Vulgata traduz: PHARISAEI TEMPTANTES EVM. Jesus mostrou-lhes que o problema estava com eles mesmos: "Por causa da dureza dos vossos corações" – πρός τήν σκληροκαρδίαν. A preposição πρός aí empregada com o acusativo, pode significar em favor de, de acordo com etc. Jesus ressaltou que Moisés não deu mandamento (ενετείλατο), mas, para por em ordem a casa, permitiu (επετρέψεν) a criação do instrumento judicial denominado carta de divórcio. Naturalmente o adultério, a poligamia e o concubinato não eram considerados adulterinos, segundo a legislação judaica. Assim, o conceito de adultério são relações com uma das mulheres de propriedade de outro homem. É bom ler l Cor.7.15. Temos aí um caso em que o crente não fica na obrigação de manter os laços matrimoniais. Destaca-se a liberdade do cristão de casar-se de novo, inversamente ao que acontece com dois crentes casados (v. 11), procedimento legado à mulher. Para os judeus o casamento entre os pagãos não era válido. Isto preservava a unidade e pureza do povo judeu, donde viria o Messias. "A salvação vem dos judeus" (João 4.22). |
Pr. José Alves da Silva Bittencourt |