O PROBLEMA DO DIVÓRCIO (l)
É lícito ao homem dar carta de divórcio e contrair novas núpcias?
(Mateus 19: 3-17)

Um dos intrincados problemas que Jesus enfrentou foi a questão do divórcio. Quatro pequenas passagens fornecem a evidência básica para as considerações próprias em relação ao importante e significativo assunto: Mat. 5: 31 - 32; 19:3 - 12; Marc. 10: 2 - 12; Luc. 16: 18. Em Marcos e em Lucas Jesus aparece declarando categoricamente que quem repudiar (απολυσαι) simplesmente sua mulher sem dar-lhe "carta de divórcio" (βιβλιον αποτασιου) e casar com outra, comete adultério, ou comete adultério contra a sua mulher. Ambas as passagens em Mateus introduzem a chamada "frase de exceção" - "a não ser por causa de prostituição" (παρεκτος λογου, πορνειας = senão por fornicação (kjv),"E NISE OB FORNICATIONEM” (Vulgata). Por fornicação se entende o pecado da carne, figurativamente a adoração de ídolos pelos hebreus, falta de castidade.

Indiscutivelmente a interpretação deste versículo tem dado ocasião a perspicazes controvérsias, sendo necessárias algumas considerações sobre a matéria sem demasiadas pretensões. Entendemos que a Bíblia interpreta a própria Bíblia. Se ela não se interpretar em determinada parte, neste ponto não se pode estabelecer principio de fé. É no caminho da prudência que nos propomos andar, atentando também para o texto original, além dos contextos que a Palavra indicar. Entendemos que a definição de termos é importante, e começamos a pergunta que significa fornicação (πορνεια)? Mantém seu uso como ou é equivalente ao adultério (μοιχεια)? O adultério era punido com a morte (Lev. 20: 10) e não acontecia o mesmo com o divórcio. A base desta indagação pode ser apreciada em Det. 22: 13 - 21 e Deut. 24: 1 - 4. No primeiro caso, não há divórcio pois o ofensor ou  ofensora deviam ser apedrejados até a morte. No segundo caso, não há suficiente clareza se se trata de imoralidade ou de defeito pessoal. Mas é certo que não se trata de adultério e falta castidade antes das núpcias. Qualquer interpretação nesta base é inconsistente.

É bom lembrar que há três momentos distinto na história do matrimônio que merecem observação: 1-0 momento paradisíaco; 2 - O momento da antiga aliança; 3 - O momento da nova aliança.

A Bíblia apresenta duas versões da instituição do matrimônio (Gen. 1: 26 - 32; 2: 18 - 24). A primeira, fala da criação do estado do matrimônio; a segunda trata da realização ou fazer o que se criara - o matrimônio. Então o matrimônio é um elemento essencial da criação, de modo que o homem é incapaz de refletir e de glorificar o seu autor, se não for "homem e mulher" (Gen. 1: 26 - 27); o Criador só está satisfeito quando forma o casal humano (Gen. 2: 18).

As duas versões da instituição do matrimônio são diferentes na forma, mas concordes em afirmar o seguinte:

a) Deus é o criador do matrimônio, e quem o fez possível como fonte de bênção;
b) A polarização masculina e feminina implica na própria natureza do ser humano, que é o homem ou a mulher em virtude da própria essência de sua pessoa; o sexo é constitutivo do que somos;
c) Feitos um para o outro com o desígnio da procriação. A primeira narrativa responsabiliza o casal com o dever de crescer e multiplicar e encher a terra, (Gen. 1: 28). A segunda narrativa que por uma espécie de morte de si mesmo, o homem pode ter e receber a ajuda feminina, que Deus lhe destina e oferece. (Gen. 2: 21).

 

Pr. José Alves da Silva Bittencourt