A CEIA DO SENHOR - II

O que chamamos de história da primeira celebração da Ceia é mais uma preparação da idéia de comunhão expressa na sua celebração. Os fatos correlatos narrados nos evangelhos sugerem esta seqüência:

A atitude dos discípulos mostrava que sua comunhão estava frustrada pelo interesse de saber quem era o maior entre eles. A lição de Jesus foi esta: "Entre vós sou como aquele que serve". Todos deveriam estar em comunhão com esta idéia do reino da humildade; (Luc. 22: 24-30).

Como uma repreensão a idéia de ser o maior, Jesus lavou os pés deles. (João 13: 1-20). Aqui, maior é o que serve, e com isso, todos deviam comungar o mesmo sentimento.

Jesus mostrou que precisavam de estar unidos, em torno do Seu Mestre; contudo, entre eles havia um que era traidor do Mestre (Mat. 26: 21-25), Judas Iscariotes. Este não estava em comunhão com os demais, pois que havia uma forte reação de indignação entre eles. O traidor estava comendo com eles, mas não estava em comunhão com eles, apesar de juntos à mesa (João 13: 21,22).

O causador da frustração da amizade comum ao Mestre saiu no intento da realização do seu propósito (João 13:30). Cessada a causa, cessa o efeito.

Nessa nova condição ambiental e mental, Jesus tomou o pão com que celebrara a Páscoa judaica, passou à instituição da Ceia. E partindo o pão, deu-lhes dizendo: "Isto é o meu corpo, que por vós é dado; fazei isto em memória de mim"; Do mesmo modo tomou o cálice, depois da ceia, dizendo: "Este cálice é o Novo Testamento no meu sangue, que é derramado por vós:i.

Já era noite, e tendo cantado um hino saíram para o Jardim de Getsêmani, para o Monte das Oliveiras.

Todos deveriam estar em comunhão com a idéia de que "melhor coisa é dar do que receber"; quem quiser ser o maior deve ser o que mais serve; e que uma casa dividida está fadada à destruição. É justo encarnar aquilo que dizemos ser. Jesus ensinou a humildade e deu disso o melhor exemplo.

O que alguns desejam hoje é a prática de uma comunhão similar àquela ensinada por Cristo e ilustrada na primeira celebração da Ceia do Senhor. Então se quisermos seguir o modelo primitivo ao pé da letra deveríamos celebrar o memorial à noite, como está escrito: "E era já noite" (João 13:30), Tudo começou com a celebração da páscoa no cair da tarde: "Chegando à tarde, assentou-se à mesa com os doze" (Mat. 26:20). A seguir é que vem a Ceia.

Levando tudo ao pé da letra, o pão deveria ser sem fermento (Mat. 26:17). O pão deveria ser partido e não cortado (Luc. 22:19). Nesta linha de observação vemos que o cálice era um só para todos sorverem, cada um, o seu gole (Mat. 26:26, 27). "E tomando o cálice, e dando graças deu-lho, dizendo: Bebei dele todos". Esta era uma prática oriental comum, que nos faz lembrar os sulistas com seu chimarrão, com um só canudo (bomba) para todos.

Todos estavam reclinados e não assentados (João 13: 23-26). A ceia foi servida após a refeição pascoal. Como Judeu Jesus celebrou a páscoa, e como Mestre de um novo pacto instituiu a ceia memorial. Vejam só, esta primeira celebração só teve a participação do elemento masculino.

Não temos de estar preocupados com esses pormenores circunstanciais e culturais, mas em manter a unidade dos princípios doutrinários que seus elementos representam. A Ceia do Senhor é uma ordenança cristã, lembrando que Cristianismo não é judaísmo, nem reforma de judaísmo.

A Ceia do Senhor, é memorial da vida de Cristo dada por nossa vida. Paulo ensina que devemos "anunciar a morte do Senhor até que venha"..."Fazei isto em memória de mim".

 

Pr. José Alves da Silva Bittencourt