Dentre os muitos aspectos que a noção de mordomia envolve, a mordomia do tempo é, certamente, um dos mais fundamentais. É no tempo que a vida, em todas as suas modalidades, transcorre. Homens, animais e vegetais, todos os seres vivos existem no tempo. Entretanto, diferentemente das demais espécies, o homem se distingue pela consciência do tempo. Visto não se limitar à esfera da experiência, podendo refletir sobre o vivido, o homem é um ser responsável e que, portanto, deve zelar pelo uso do seu tempo. Tendo como base esse pressuposto, seguem-se, abaixo, três verdades e uma sugestão que deveriam estar em nossa mente quando pensamos no exercício da mordomia do tempo.
l - A preciosidade do tempo. Horas, minutos, segundos, décimos, centésimos, milésimos de segundo. Uma vez perdido ou não devidamente aproveitado o momento conveniente, nada mais resta a fazer, a não ser avaliar os prejuízos, mensurando-lhes a dimensão e o significado. Um minuto pode ser decisivo em um jogo de futebol. Um segundo é o tempo suficiente para que um jogador de basquete efetue a cesta da vitória. Um milésimo de segundo determina, por vezes, a pote position de um Grande Prêmio de Fórmula 1. Em todos esses exemplos, a importância do tempo afirma-se de um modo claro. Entretanto, em todos esses casos, por mais que a perda seja considerável, ela não é incontornável. Torneios esportivos e campeonatos automobilísticos acontecem todos os anos e, a cada disputa, um leva o prêmio. Na vida, há também perdas dessa natureza. São perdas, mas perdas cujos danos são passageiros e remediáveis. Entretanto, também fazem parte da existência humana aquelas perdas cujos efeitos são para toda uma vida e, por vezes, para toda a eternidade. Nesses casos, mais do que nunca, importa não desperdiçar tempo (Hb. 4.7) e levar em conta as palavras do apóstolo Paulo, quando este diz: "Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, e, sim, como sábios, remindo o tempo; porquanto os dias são maus"(Ef. 5.15-16).
II - O nosso tempo pertence a Deus. A consciência desta verdade é fundamental. A imensa maioria das pessoas vive como se Deus não existisse e não Lhe devêssemos a mordomia do tempo. As Escrituras são, porém, claras a esse respeito. A observância do sábado no AT e a santificação do domingo no NT testificam da necessidade de uma consagração integral a Deus. Há quem diga que o dizimo não é apenas daquilo que se ganha financeiramente, mas também daquilo que se recebe "temporalmente". Quanto do nosso dia temos dedicado à leitura bíblica e à prática da oração? Ainda que o nível de espiritualidade de uma pessoa não possa ser medido, exclusivamente, pela quantidade de tempo que ela consagra à vida devocional, também não se pode negar que só há vida com Deus quando separamos parte de nosso tempo para o cultivo desse relacionamento espiritual. Desenvolvamos mais e mais, pois, este hábito em nossas vidas, a exemplo de Daniel (Dn. 6.10) e de tantos outros servos de Deus, inclusive o próprio Jesus.
Ill - O perigo do desperdício do tempo. Aqui é preciso pontuar uma coisa. Geralmente, pensa-se que o mau uso do tempo se reduz ao emprego do tempo em atividades moralmente ilícitas. Não é bem assim. Com efeito, o desperdício do tempo é, sem dúvida, um dos maiores males na vida das pessoas. Desperdiçamos tempo quando nos envolvemos em conversas fúteis e inúteis, em leituras sem proveito, em atividades não essenciais ou quando, simplesmente, "matamos o tempo" sem fazer nada de útil. Se é certo que nosso corpo e nossa mente precisam de repouso e de momentos de lazer e diversão, dedicar-se exclusivamente a esses misteres é perder o foco da vida. Portanto, embora essas atividades sejam legítimas, elas precisam ser praticadas dentro de certos limites razoáveis. A Bíblia, com efeito, nos exorta à diligência nos serviços do Senhor (Mt. 25.14-30; Hb. 6.9-12). IV -Recomendações para o bom uso do tempo. Para usar bem o tempo, é fundamental ter um pouco de método. Em geral, associa-se método a um estilo de vida vazio e maçante. Não é bem assim. A pessoa que, realmente, tem método é aquela que distribui suas horas semanais de tal forma que consagra tempo a todas as atividades necessárias ao seu desenvolvimento integral - aí incluindo o lazer e o repouso. Seria bom que planejássemos melhor nossas vidas. A execução de um planejamento envolve, porém, duas outras coisas: pontualidade e equilíbrio. De que adianta organizar nossa semana, se não honramos nossos compromissos? E mais: de que vale um planejamento de vida desequilibrado? A idéia de planejamento implica em uma idéia de proporção. O que é mais importante? Onde quero chegar? Nenhum atleta é bem-sucedido se não priorizar a competição em foco (l Cor. 9.24-27). Na vida é igualmente necessário concentrar as energias naquilo que consideramos importante. E, particularmente, como cristãos, é fundamental estar atentos às coisas eternas, que, em, nosso planejamento, devem ter um tempo todo especial (Mt. 6. 19-34; Cl. 3.1-3).
Rafael Rodrigo Ruela Souza
(Baseado em: KASCHEL, Walter. Não Sou Meu. 1979). |