O JEJUM E BÍBLICO?
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A resposta a esta pergunta é muito simples. Sim, o jejum é bíblico, isto é, está na Bíblia. O que se deve entender bem é que nem tudo que é bíblico é matéria de fé e prática hodiernamente. A guarda do sábado é bíblica, mas não é prática cristã, desde há muito; o ósculo santo é outra prática não atual e geral nas igrejas cristãs. O mesmo se pode dizer da prática de fazer voto.

Temos de entender que, por muito tempo os crentes primitivos tiveram como lugar de reunião o próprio templo judaico e as sinagogas. O livro de Atos dos Apóstolos prescreve algo muito simples para as práticas cristãs para os convertidos dentre os gentios, conforme ficou estabelecido, na assembléia, no capítulo 15 de Atos: "Escrever-lhes que se abstenham das contaminações dos ídolos, da prostituição, do que é sufocado e do sangue" (At. 15.20). Mais tarde o apóstolo Paulo exorta: "Comei de tudo quanto se vende no açougue" (l Cor. 10.25a). Este é o mesmo Paulo que, ao navegar para a Síria, rapou a cabeça em Cencréia, "porque tinha voto" (At. 18.18). As igrejas cristãs hoje não tem esta prática. Como se pode ver, algumas práticas antigas do culto cristão não chegaram a ser consideradas ordenanças, como o batismo e a Ceia do Senhor. Foram "postas de lado" por ser desnecessárias em suas significações, especialmente, quando seu uso dá margem ao pensamento de sentido meritório, pois Jesus declara: "A minha graça de basta". Tudo o que somos e temos provém da graça de Deus. Nada merecemos.

No grego a palavra jejuar é νηστεύω (nesteo) que significa abster-se de qualquer tipo de comida, durante um tempo limitado. Mas, qual é mesmo a importância do jejum? Que é mesmo que dava motivo à prática da abstinência de manjares? Nas religiões pagãs a prática do jejum envolvia a ideia de amparo contra as ações demoníacas, e se constituía num preparo espiritual para um encontro com a divindade. Assim, o jejum pertencia ao ritual de iniciação dos noviços. Por outro lado, era uma garantia de sucesso na magia. Havia, no paganismo, o costume de jejuar depois de uma morte, quando há perigo de infecção no comer e beber. O dia do jejum η νηστεία (he nesteía), em Atenas era o rito próprio relacionado com a fertilidade. Era uma celebração de fertilidade das mulheres. Um tipo de abstinência sexual que resultava na bênção da aptidão para se apropriar dos poderes divinos da fertilidade.

No mundo antigo era comum o jejum no ambiente de retiros religiosos com o propósito de se garantir contra as desgraças, mas isto não incluía motivos éticos.

Na Versão dos Setenta ou Septuaginta, o jejum envolvia a ideia de afligir-se, ou "afligir sua alma", conforme Lev. 16.29-31; 23.27-32; Num. 29.7; Is. 58.3,5). A prática também aparece na expressão: "Não comer pão nem beber água" (Ex. 34.28). No livro de Isaías 58.3 está escrito: "Por que jejuamos nós, e tu não atentas pra isso? Por que afligimos nossas almas, e tu o não sabes", "Eis que no dia em que jejuais achais o vosso próprio contentamento, e requereis todo o vosso trabalho". Isto estava ligado ao rito da purificação em que o jejum desempenhava importante papel.

Entre os judeus, o jejum era também praticado no sentido dum preparo para entrar em comunhão com Deus: "Subindo eu o monte a receber as tábuas de pedra, as tábuas do concerto que o Senhor fizera conosco, então fiquei no monte quarenta dias e quarenta noites; pão não comi, e água não bebi" (Deut. 9.9). E mais se lê no Velho Testamento: "E eu dirigi o meu rosto ao Senhor Deus, para o buscar com oração e rogos, com jejum, e saco e cinza" (Dan. 9.3).

Pr. José Alves da Silva Bittencourt