O PROBLEMA DO DIVÓRCIO (II)
"É lícito ao homem dar carta de divórcio e contrair novas núpcias?"
(Mateus 19.3-17)

A Bíblia ensina que o matrimônio foi instituído, antes do aparecimento do pecado. Assim é certo que o mal não faz parte da criação e nem a sexualidade é um mal. Não podemos nos esquecer que o Salvador nos veio pela maternidade. Lemos em Paulo que por um homem o pecado entrou no mundo. Deste modo, o tempo da inocência e de alegria logo deu lugar ao tempo da "dureza de coração" (Mat. 19.8). O matrimônio foi comprometido pelo pecado, surgindo a necessidade de regras sólidas e precisas, para manter a família e o povo de Israel, donde veio o Salvador. "A salvação vem dos judeus" (João 4.22). Não é, pois, sem sacrifício que as necessárias normas são estabelecidas, sendo certo que "melhor é morar no canto do eirado do que fazer casa comum com uma mulher rixosa" (Prov. 25.24). Desde o princípio o casal fica exposto constantemente a mil e uma tentações, atrasos, dúvidas, procura e tormentos que não ocorreram com primeiro casal que as ignorou.

O assunto é posto sob o prisma de uma questão legal: "É lícito (έξεστιν - ecestin) ao homem repudiar sua mulher? (Mat. 19.3). A união entre homem e mulher foi feita por Deus no propósito da procriação. Isto continua sempre, porque também vale o princípio bíblico: "Não é bom que o homem (macho ou fêmea) esteja só" (Gen. 2.18). As passagens de Marcos 10.11 e de Lucas 16.18 não apresentam qualquer limitação no discutido direito do homem separar-se de sua mulher. A indissolubilidade de união legal é negada com a possibilidade do divórcio em caso de má conduta de um dos cônjuges, especialmente do homem, conforme está posto aqui. A solução oferecida a esta dificuldade está alicerçada no fato de que Cristo apoiou Moisés. Este ofereceu uma separação judicial. E, assim, legalmente, o homem ou a mulher fica apto para assumir outro compromisso matrimonial legal. Pela analogia da Escritura como importante princípio de interpretação, entendemos que o que Mateus escreveu não nega os escritos de Marcos e Lucas; pelo contrário.

No tempo do ministério de Jesus, a coisa parecia um tanto caótica. Um caloroso debate acerca do divórcio estava em andamento. Daí virem os fariseus a Jesus com a indagação: "É legal divorciar alguém de sua mulher por qualquer causa?" Em Deut. 24.1 a expressão hebraica "ERWATH DABHAR, צרוח דבר é traduzida por "algo indecente", "alguma coisa indecente". A escola de Shammai e seus seguidores entendiam que erwath dabhar era nada menos do que falta de castidade e adultério; daí ensinarem que isto justificava um homem divorciar de sua mulher. Deste modo davam demasiada ênfase à frase: "se ela não achar graça em seus olhos". É fácil de entender que esta questão dos fariseus provocava uma constante batalha entre as duas escolas rabinas: A escola de Hillel e a escola de Shammai. Hillel favorecia o homem no direto de divorciar sua esposa por qualquer motivo. A Beth Shammai era uma escola conservadora e permitia o divórcio somente se houvesse alguma coisa impura na vida da mulher. A frase significativamente importante para nortear seu sentimento e atitude, em Deut. 24.1 é esta: "por achar nela alguma coisa feia", pois os da escola de Shammai davam a isto a significação de adultério. Aqui é bom estar lembrando que o adultério era castigado com a morte (Lev. 20.10). Tudo indica que isto não mais acontecia assim, nos dias de Jesus.

Pr. José Alves da Silva Bittencourt