A inter-relação da educação cristã com outros ministérios |
Considerando o tema proposto, verifica-se que ele parte do princípio de que existe uma relação. Relação é intercâmbio. É cumplicidade. Portanto, uma pergunta se torna inevitável. Quais? Para tanto, na busca desta resposta, busquemos compreender alguns elementos do tema. Compreender a matriz conceitual ajudanos a entender os rumos e sentidos de nossa reflexão. A educação acompanha a evolução dos povos e o desenvolvimento de cada indivíduo. É por meio dela que a cultura recebe seus contornos e as subjetividades são constituídas através de múltiplas interações. Educar faz parte do processo de recriação da vida. A educação não envolve apenas um conjunto de informações, mas a própria maneira de conceber e viver a vida. Ela está presente na vida humana e, só por meio dela, nos constituímos humanos, visto não termos sobre nós nenhum determinismo, como nos animais. Educação= e+ducare (ducare significa “guiar, conduzir”, e o prefixo e, significa “para fora”). A etimologia da palavra indica a atividade básica de “conduzir para fora, tirar para fora, trazer à luz aquilo que já existe, de certa maneira, dentro da criança; é descobrir, desvelar, revelar as riquezas que o Criador já escondeu no coração de todo ser humano”. De acordo com Libânio, a maiêutica se presta à mesma imagem (maieutiké techne): “ajudar a gerar” (LIBÂNIO), trazer à luz aquilo que está dentro. Neste sentido, o ato de educar é um ato de ajuda. No dizer de Giussani, “educar é comunicar a si mesmo”, isto é, educação é a comunicação “do próprio modo de se relacionar com o real” (GIUSSANI, 2004). Para Freire, educação é “capacitar as pessoas a lidarem crítica e criativamente com a sua realidade social, e não simplesmente adaptá-las a ela...um exercício de libertação....uma conscientização. Nesta concepção, vê-se a matriz marxista de entendimento, mostrando que o ser educado é um ser consciente, crítico e sintonizado com seu tempo. No processo educativo é necessário reconhecer que “somos seres condicionados, mas não determinados” (FREIRE). Isso significa não negar os condicionamentos genéticos, culturais, sociais a que estamos submetidos. A vida é um vir-a-ser. O ser humano está em construção. O ato educativo, como processo de formação, deve ser compreendido como dinâmico, em que educando e educador assumem mútua participação. Groome destaca que três dimensões podem ser identificadas na atividade de “conduzir para fora”: primeiro, a partir de um dado ponto; segundo, um processo presente, e terceiro, um futuro em direção ao qual efetua-se o “guiar para fora”. Nesse sentido, a educação tem uma dimensão “já”, uma de “ser concebida” e uma de “ainda não”. Ou seja, a primeira refere-se tanto “ao que o aprendiz já sabe como ao que o educador sabe e, ainda, ao que o aprendiz tem capacidade interior de aprender”. A segunda enfatiza “não o que já está lá, mas aquilo que está sendo descoberto pelo aluno à medida que lhe chega de além das limitações presentes”. A terceira remete ao ponto para o qual se efetua o conduzir para fora, isto é, um horizonte além dos limites presentes do aluno. (GROOME). Contudo, nosso tema fala da Educação pelo viés cristão. Resta-nos, então, trabalhar a concepção da Educação Cristã. Educação Cristã é um processo de educação e aprendizado sustentado pelo Espírito Santo e baseado nas Escrituras. Procura guiar indivíduos a todos os níveis de crescimento através de métodos de ensino em direção ao conhecimento e vivência do plano e propósito divinos, mediante Cristo em todos os aspectos da vida. Também equipa as pessoas para o ministério efetivo com uma ênfase geral em Cristo como Mestre Educador por excelência e seus mandamentos de fazer e treinar discípulos. Para Groome, é “uma atividade política com peregrinos no tempo, que deliberadamente se ocupa, com as pessoas, do nosso presente, da herança passada que ele engloba, e da possibilidade de futuro que ele mantém para a pessoa total e para a comunidade....toda educação, pelo menos implicitamente, é uma procura do transcendente. (Thomas Groome). Educação Cristã é um processo que ocorre tanto informalmente como através de uma série planejada, sistemática e contínua de eventos, objetivando levar o crente à conformar-se à imagem de Cristo (maturidade), tendo como base autoritativa as Escrituras Sagradas e sustentada pelo Espírito Santo, visando a glória de Deus. “O lema da educação cristã é: a teologia ao fundo, a graça e a fé em primeiro plano” (Randolph Miller). Nesse sentido, pode-se dizer que a educação cristã “é o propósito, feito geralmente pelos membros da comunidade, de participar das mudanças que têm lugar as pessoas em sua relação com Deus, com a igreja, com outros indivíduos e consigo mesmo” (SHERRILL). A educação cristã não pode ser dissociada da teologia. Por isso, o educador cristão precisa buscar aprimorar seus conhecimentos teológicos, desde a sua formação (teológica), bem como numa educação continuada. Consideramos a educação como um conceito geral e também na perspectiva cristã. Mas o tema aponta para outros ministérios. Ministério é serviço. Portanto, vejamos como o ministério cristão se apresenta: A Bíblia apresenta a igreja como um corpo em que todos os membros possuem funções específicas. Nela encontramos as funções do Ministério Evangélico, que o tornam excelente em seus objetivos, desempenho e resultados, as seguintes: • Função profética ou “querística”, ou ministério da pregação. • Função pedagógico-didática, ou ministério do ensino e da educação. • Função litúrgica, ou ministério da adoração. • Função poimênica, ou ministério pastoral. • Função episcopal ou “kibernética”, ou ministério de supervisão, administração e liderança. • Função “paraclética” e “noutética”,ou ministério de consolação, admoestação e aconselhamento. • Função “koinônica”, ou ministério da comunhão. • Função “diakônica”, ou ministério de mobilizar para o serviço. • Função apologética, ou ministério de defesa da fé e da sã doutrina. • Função evangelizante, ou ministério da evangelização. (AZEVEDO, Irland – Programa de Pragmática Pastoral na FTBSP). Assim, cada função focaliza um aspecto do ministério evangélico. Dessa forma, resta-nos compreender sua área de atuação, compreender o campo da Educação Cristã. Na inter-relação com outros ministérios precisamos contemplar que o campo de atuação da educação cristã é abrangente, não podendo ser limitado à Escola Bíblica Dominical. Apesar de reconhecermos que, pela natureza e alcance de seu trabalho, a Escola Bíblica Dominical ocupa posição de primordial importância no plano geral da Educação Cristã, a tarefa educacional da igreja vai muito além dela, pois há várias atividades que são essencialmente educativas, e que extrapolam essa significativa instituição educacional de nossas igrejas, conforme apresenta-se a seguir. A ação passiva e ativa dos fiéis no solene ouvir da mensagem de Deus é uma oportunidade para se desenvolver o ministério pedagógico. A igreja ensina por meio de suas atividades cotidianas. Todas as demais atividades, programas e ações, tais como encontros, reuniões diversas e confraternizações, são meios pelos quais se transmite valores e princípios bíblicos. É preciso que a liderança seja consciente disso e estabeleça um plano geral de Educação Cristã, para que esses ensinos estejam todos voltados para uma única direção, dentro da proposta pedagógica da igreja. A igreja ensina na adoração. Neste tempo de grande ênfase no louvor e adoração, necessário se faz aperceber-se da importância pedagógica desses momentos. Os cânticos transmitem preciosas mensagens de uma maneira que alcança rapidamente o coração das pessoas, daí a grande responsabilidade e o cuidado da liderança para com o conteúdo do que cantamos. A disciplina é outra forma da igreja ensinar. Ao aplicar a disciplina e a exigência de éticos cristãos, a igreja está mostrando o alto padrão moral da vida cristã. O cuidado com a disciplina ensina não somente àquele que a recebe como aos demais membros da comunidade, cumprindo assim a sua função didática. Ressalta-se, contudo, que a disciplina, além de seu caráter corretivo, tem também caráter formativo. O campo educacional da igreja é vasto, conforme pontua Lawrence Richards: "Considerando a função da edificação e dos dons espirituais, temos de ver que a educação cristã, para promover adequadamente o crescimento progressivo da vida de Cristo nos crentes, tem de tratar do Corpo como um todo! Isolar o "ministério educacional da igreja" da vida geral da congregação é um erro fatal. A educação cristã tem de levar todos os membros do Corpo a servir uns aos outros" (Lawrence O. Richards, 1983). Dessa forma, a educação cristã só se realiza se de fato interagir com outros ministérios e sendo o fiel da balança, estabelecendo o fio condutor da ação educacional da comunidade. Temos que tornar nossas igrejas mais conhecedoras de Deus e da revelação sobrenatural em Jesus. Igrejas sadiamente orientadas terão inserção eficaz em sua comunidade, possibilitando uma atuação eficiente do Evangelho no mundo. |
Wagno Alves Bragança |